A grande transferência de riqueza: mais de US$ 80 trilhões mudarão de mãos nas próximas décadas
A maior transição patrimonial da história moderna já começou. Para famílias empresárias, investidores e indivíduos com ativos internacionais, o desafio não está apenas em transferir patrimônio, mas em preservar valor, garantir continuidade e administrar corretamente os impactos tributários, sucessórios e societários em diferentes jurisdições.


Uma transformação silenciosa está redefinindo a distribuição da riqueza global.
Nas próximas duas décadas, patrimônios construídos principalmente por integrantes das gerações mais antigas serão transferidos para cônjuges, filhos, netos, fundações e organizações filantrópicas. O movimento, conhecido internacionalmente como Great Wealth Transfer, representa muito mais do que uma sucessão geracional.
Trata-se de uma reorganização profunda da propriedade de empresas, imóveis, investimentos financeiros, participações societárias e estruturas patrimoniais ao redor do mundo.
O UBS Global Wealth Report 2025 estima que mais de US$ 83 trilhões serão transferidos globalmente nos próximos 20 a 25 anos. Desse total, aproximadamente US$ 9 trilhões deverão ser transferidos entre cônjuges, enquanto cerca de US$ 74 trilhões passarão de uma geração para outra. Os Estados Unidos deverão concentrar mais de US$ 29 trilhões dessas transferências. O Brasil aparece em posição de destaque, com um volume estimado próximo de US$ 9 trilhões.
Esses números colocam a sucessão patrimonial no centro das decisões estratégicas de famílias, investidores e empresários.
Diferentes estudos, uma mesma transformação estrutural
As projeções variam conforme o período analisado, a abrangência geográfica e a metodologia utilizada.
Enquanto o estudo global do UBS aponta uma transferência superior a US$ 83 trilhões, a Cerulli Associates estima que, somente nos Estados Unidos, aproximadamente US$ 124 trilhões poderão mudar de mãos até 2048. Cerca de US$ 105 trilhões seriam destinados a herdeiros, enquanto aproximadamente US$ 18 trilhões seguiriam para organizações filantrópicas.
A diferença entre os números não reduz a relevância do fenômeno. Pelo contrário, reforça sua escala.
A transferência já está em andamento e tende a acelerar à medida que famílias reorganizam seus patrimônios, fundadores deixam a gestão de seus negócios, investidores revisam suas estruturas e novas gerações assumem responsabilidades sobre ativos cada vez mais diversificados e internacionalizados.
Transferir patrimônio não significa apenas distribuir uma herança
Quando se fala em sucessão, é comum imaginar apenas a divisão dos bens após o falecimento de um familiar. Essa interpretação é limitada.
A transferência patrimonial pode ocorrer por diferentes caminhos:
doações realizadas em vida;
transferências entre cônjuges;
sucessão de empresas familiares;
reorganizações societárias;
distribuição de participações em holdings;
utilização de trusts e outras estruturas fiduciárias;
planejamento filantrópico;
transmissão de imóveis e ativos financeiros;
transferência de propriedade intelectual;
sucessão de investimentos mantidos no exterior.
Cada modalidade pode produzir consequências tributárias, jurídicas, societárias e administrativas distintas.
Em estruturas internacionais, a complexidade aumenta porque um mesmo patrimônio pode estar relacionado a diferentes países. A residência fiscal do titular, seu domicílio, sua cidadania, a localização dos ativos, a residência dos herdeiros e o tipo de estrutura utilizada podem alterar significativamente o tratamento da transferência.
Por isso, uma estratégia sucessória eficiente não deve começar com a escolha isolada de um instrumento. Ela deve começar com a compreensão integral da família, do patrimônio e das jurisdições envolvidas.
O Brasil ocupará uma posição central nesse movimento
A estimativa de que quase US$ 9 trilhões sejam transferidos no Brasil ao longo das próximas décadas evidencia a dimensão patrimonial acumulada por famílias e empresários brasileiros.
Parte relevante desse patrimônio, entretanto, já não está limitada ao território nacional.
Hoje, muitas famílias brasileiras possuem imóveis nos Estados Unidos, contas de investimento no exterior, participações em empresas internacionais, filhos residentes em outros países, estruturas societárias estrangeiras ou planos de mudança de residência fiscal.
Em alguns casos, os fundadores permanecem no Brasil enquanto os herdeiros vivem nos Estados Unidos ou na Europa. Em outros, os pais transferem sua residência fiscal, mas mantêm empresas, imóveis e investimentos no país de origem.
Esse novo perfil patrimonial exige uma abordagem integrada.
Um planejamento construído apenas sob a perspectiva brasileira pode não produzir os mesmos efeitos em outra jurisdição. Da mesma forma, uma estrutura eficiente nos Estados Unidos pode gerar consequências fiscais, sucessórias ou declaratórias no Brasil.
A verdadeira eficiência está na coordenação entre os diferentes sistemas.
O risco de uma sucessão fragmentada
Patrimônios relevantes costumam ser formados ao longo de décadas. Entretanto, sua transferência pode ser comprometida por decisões tomadas de maneira isolada.
Entre os principais riscos de uma sucessão sem planejamento integrado estão:
incidência tributária não antecipada;
falta de liquidez para pagamento de impostos e despesas sucessórias;
bloqueio temporário de contas e investimentos;
conflitos entre herdeiros;
perda de controle sobre empresas familiares;
necessidade de venda emergencial de ativos;
estruturas societárias incompatíveis com os objetivos da família;
obrigações declaratórias não cumpridas;
exposição a regras sucessórias de múltiplas jurisdições;
ausência de preparação dos sucessores.
O problema não está apenas no valor eventualmente pago em impostos. Uma estrutura inadequada também pode provocar perda de governança, interrupção empresarial, disputas familiares e redução da capacidade de preservação do patrimônio.
Em muitos casos, o ativo mais relevante da família não possui liquidez imediata. Pode ser uma empresa, uma carteira imobiliária, uma participação societária ou um investimento de longo prazo.
Quando a sucessão exige recursos financeiros imediatos, mas o patrimônio está concentrado em ativos ilíquidos, a família pode ser obrigada a vender posições estratégicas em condições desfavoráveis.
O patrimônio internacional exige uma análise própria
Famílias com ativos nos Estados Unidos precisam compreender que as regras sucessórias e tributárias norte-americanas utilizam critérios específicos.
Nos Estados Unidos, a análise do estate tax e do gift tax pode considerar cidadania, domicílio e localização jurídica dos ativos. Esses conceitos não são necessariamente iguais aos critérios utilizados para fins de imposto de renda.
Para não residentes e não cidadãos norte-americanos, determinados bens localizados nos Estados Unidos podem integrar o patrimônio sujeito às regras federais de estate tax. O IRS informa que, em determinadas situações, o espólio de um não residente e não cidadão deve apresentar o Form 706-NA quando o valor dos ativos situados nos Estados Unidos ultrapassa US$ 60 mil. A obrigação de apresentação não significa, isoladamente, que haverá imposto devido, pois a apuração depende da composição do patrimônio, das deduções disponíveis, da estrutura de propriedade e de outros elementos.
Esse exemplo demonstra por que investimentos internacionais não devem ser analisados apenas pelo retorno financeiro.
A forma de titularidade de um imóvel, de uma carteira de investimentos ou de uma participação empresarial pode afetar diretamente a sucessão, a tributação e o processo de transferência aos herdeiros.
A estrutura adequada deve ser avaliada antes da aquisição ou reorganizada enquanto existe tempo para implementar as mudanças de forma consistente.
Sucessão empresarial e sucessão patrimonial precisam estar conectadas
Para famílias empresárias, a grande transferência de riqueza também representa uma transferência de controle.
Não basta definir quem receberá as participações societárias. É necessário determinar quem estará preparado para tomar decisões, administrar riscos, representar a família e preservar o valor da empresa.
Uma sucessão empresarial estruturada precisa responder a questões como:
Quem assumirá a gestão?
Os herdeiros desejam participar da operação?
Como será exercido o direito de voto?
Quais decisões dependerão de aprovação conjunta?
Como serão tratados os familiares que não trabalham na empresa?
Existe uma política para distribuição de dividendos?
Há mecanismos para compra e venda de participações?
O patrimônio empresarial está separado do patrimônio pessoal?
Existe liquidez suficiente para atender herdeiros com objetivos diferentes?
A ausência dessas definições pode transformar uma empresa saudável em fonte de conflitos.
Por outro lado, quando a sucessão é acompanhada por regras de governança, acordos societários, preparação da nova geração e uma arquitetura patrimonial coerente, a transferência pode fortalecer a continuidade do negócio.
Preparar os herdeiros é tão importante quanto estruturar os ativos
A continuidade patrimonial depende de documentos e estruturas, mas também depende de pessoas.
O UBS Global Entrepreneur Report 2026 mostra que 67% dos empresários entrevistados pretendem priorizar a preparação dos herdeiros para administrar o patrimônio com responsabilidade. O estudo também aponta que 61% estão preocupados com a eficiência tributária da transferência e que 69% esperam buscar orientação de advogados, consultores tributários ou especialistas em planejamento sucessório.
Esses dados revelam uma mudança importante.
Famílias patrimoniais começam a compreender que sucessores não devem ser informados apenas quando a transferência se torna inevitável. Eles precisam ser incluídos gradualmente nas discussões sobre investimentos, empresas, governança, responsabilidade e propósito patrimonial.
Essa preparação pode envolver:
educação financeira e patrimonial;
participação progressiva em decisões;
criação de conselhos familiares;
definição de políticas de investimento;
organização de reuniões entre gerações;
estabelecimento de critérios de governança;
formalização dos valores e objetivos da família.
O patrimônio pode ser transferido juridicamente em um único momento. A capacidade de administrá-lo, entretanto, precisa ser construída ao longo do tempo.
A crescente participação das mulheres na gestão patrimonial
Uma parcela relevante da transferência ocorrerá inicialmente entre cônjuges.
Dados da Cerulli indicam que aproximadamente US$ 54 trilhões poderão ser transferidos entre cônjuges nos Estados Unidos antes de seguirem posteriormente para herdeiros ou instituições filantrópicas. Grande parte desse patrimônio deverá passar para mulheres viúvas das gerações mais antigas.
Isso significa que mulheres terão participação cada vez maior nas decisões sobre investimentos, sucessão, filantropia e continuidade patrimonial.
Famílias, consultores e instituições precisarão reconhecer essa transformação, ampliando o envolvimento de ambos os cônjuges nas decisões estratégicas e evitando que o conhecimento sobre a estrutura patrimonial permaneça concentrado em apenas uma pessoa.
Os sete pilares de uma transferência patrimonial consistente
Não existe uma estrutura universal para todas as famílias. Ainda assim, um planejamento sólido normalmente considera sete dimensões fundamentais.
1. Mapeamento completo do patrimônio
É necessário identificar ativos, passivos, participações societárias, investimentos, imóveis, seguros, estruturas internacionais e documentos relevantes.
2. Análise das jurisdições envolvidas
A estratégia precisa considerar onde cada membro da família reside, onde os ativos estão localizados e quais países possuem competência tributária ou sucessória sobre a estrutura.
3. Definição dos objetivos familiares
Preservar controle, gerar renda, proteger determinados herdeiros, manter uma empresa, apoiar causas filantrópicas ou equilibrar interesses diferentes exigem soluções distintas.
4. Estruturação societária e sucessória
Holdings, trusts, testamentos, acordos societários, doações e outros instrumentos devem ser avaliados como partes de uma arquitetura integrada, e não como soluções isoladas.
5. Planejamento tributário
O impacto fiscal deve ser projetado em cada jurisdição, considerando o momento da transferência, o tipo de ativo, a residência das partes e a estrutura de titularidade.
6. Liquidez e continuidade
A família precisa estar preparada para impostos, despesas administrativas, custos jurídicos e necessidades financeiras dos sucessores, sem depender da venda precipitada de ativos estratégicos.
7. Governança e revisão periódica
Mudanças de residência, casamentos, divórcios, nascimento de herdeiros, venda de empresas, novas legislações e aquisição de ativos internacionais podem tornar uma estrutura antiga inadequada.
Planejamento sucessório não deve começar diante de uma emergência
Quanto maior a complexidade do patrimônio, mais importante é o tempo disponível para planejar.
Estratégias implementadas com antecedência permitem avaliar cenários, reorganizar estruturas, preparar documentos, criar liquidez e envolver gradualmente os sucessores.
Quando o planejamento começa diante de uma incapacidade, de um falecimento inesperado ou de um conflito familiar, as possibilidades de reorganização se tornam significativamente menores.
O objetivo não deve ser apenas reduzir impostos.
Uma transferência patrimonial bem estruturada precisa preservar a capacidade de decisão da família, proteger ativos, garantir conformidade, reduzir disputas e proporcionar continuidade às empresas e aos investimentos construídos ao longo de gerações.
A grande transferência de riqueza já começou
Os trilhões que mudarão de mãos nas próximas décadas representam uma estatística global. Para cada família, porém, o tema é profundamente particular.
Envolve histórias empresariais, relações familiares, diferentes expectativas entre gerações e decisões capazes de influenciar o patrimônio por muitos anos.
Famílias com interesses entre Brasil, Estados Unidos e outras jurisdições precisam analisar essa transição sob uma perspectiva internacional, integrada e de longo prazo.
A H&CO GLOBAL Tax Advisory atua na coordenação entre planejamento tributário internacional, estruturação patrimonial, sucessão e reorganização societária. Nossa abordagem considera as características da família, a localização dos ativos, as jurisdições envolvidas e os objetivos de continuidade patrimonial.
Mais do que transferir bens, o verdadeiro desafio é garantir que o patrimônio permaneça estruturado, protegido e preparado para a próxima geração.
Planejar hoje é o que permite transformar uma herança em continuidade, segurança e legado.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui uma análise tributária, jurídica ou sucessória individualizada.
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