Crédito para importar da China ganha força e muda a equação para empresas brasileiras

O crescimento das importações brasileiras provenientes da China está criando um fenômeno que vai além do comércio de mercadorias. O financiamento dessas operações começa a se tornar parte da própria infraestrutura do comércio internacional.

Plataformas que antes conectavam compradores a fabricantes, cuidavam da negociação ou organizavam a logística agora avançam também sobre o crédito. O movimento pode abrir novas possibilidades para empresas brasileiras, especialmente aquelas que precisam financiar estoques e preservar capital de giro durante ciclos mais longos de importação.

Mas a disponibilidade de crédito internacional também torna a operação mais sofisticada.

Para quem importa, a análise não deveria se limitar à taxa de juros ou ao prazo de pagamento. Moeda, estrutura do financiamento, tributação, fluxo cambial, compliance, documentação e tratamento regulatório precisam ser avaliados como partes de uma mesma decisão.

China ocupa espaço cada vez maior nas cadeias brasileiras

A relação comercial entre Brasil e China atingiu uma dimensão que torna difícil tratar o país asiático apenas como mais uma origem de produtos.

Segundo levantamento citado pela Forbes, o número de empresas brasileiras que importam da China passou de aproximadamente 3.700 em 2000 para cerca de 40 mil em 2024. O crescimento foi particularmente expressivo entre micro e pequenas empresas, muitas delas integradas ao comércio eletrônico e aos grandes marketplaces brasileiros.

Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e China chegou a aproximadamente US$ 171 bilhões, enquanto as importações brasileiras provenientes do mercado chinês somaram cerca de US$ 70,9 bilhões.

E a movimentação permaneceu forte em 2026. Apenas em junho, as importações provenientes da China alcançaram aproximadamente US$ 7,8 bilhões, crescimento de 27,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo dados oficiais do comércio exterior brasileiro.

Máquinas, componentes, equipamentos eletrônicos, matérias-primas e bens de consumo fazem parte de uma relação comercial que hoje atravessa empresas de diferentes portes e setores.

O problema é que crescimento comercial também exige capital.

O desafio não está apenas em encontrar fornecedores

Para muitas empresas, localizar produtos e fabricantes chineses tornou-se significativamente mais simples nos últimos anos.

Plataformas digitais reduziram barreiras de acesso, aumentaram a transparência entre compradores e fornecedores e permitiram que empresas menores participassem diretamente de cadeias internacionais que anteriormente exigiam estruturas muito maiores.

A dificuldade financeira, porém, permanece.

Uma empresa brasileira pode precisar pagar parte ou a totalidade da mercadoria muito antes de receber qualquer receita decorrente daquela compra.

Entre produção, embarque, transporte internacional, desembaraço aduaneiro, nacionalização, distribuição e venda ao consumidor, existe um período no qual recursos permanecem comprometidos.

Quanto maior esse ciclo, maior a necessidade de capital de giro.

É justamente nessa lacuna que novas soluções financeiras começam a avançar.

Quando a plataforma também passa a financiar a importação

Um dos movimentos recentes foi anunciado pela JoomPro, plataforma que conecta varejistas brasileiros a fabricantes chineses.

A companhia anunciou uma linha de aproximadamente US$ 100 milhões destinada ao financiamento de importações de pequenos e médios varejistas brasileiros, permitindo, em determinadas operações, que clientes posterguem pagamentos por até 60 dias depois da chegada das mercadorias ao Brasil.

O caso é relevante menos pela empresa isoladamente e mais pelo modelo que começa a surgir.

Historicamente, diferentes participantes ocupavam diferentes partes de uma importação.

Havia o fornecedor, o agente comercial, a trading, o operador logístico, o banco, o prestador cambial e outras instituições envolvidas na movimentação financeira.

Com a digitalização, essas fronteiras estão se aproximando.

Uma mesma infraestrutura pode conhecer o fornecedor, acompanhar pedidos, analisar volumes comercializados, controlar a logística e observar a frequência das compras.

Essa quantidade de informação pode permitir uma avaliação de risco muito diferente daquela realizada exclusivamente com base nos indicadores financeiros tradicionais do importador.

O crédito passa, portanto, a integrar a cadeia de suprimentos.

Crédito internacional pode melhorar o caixa, mas precisa ser analisado além do custo financeiro

Para uma empresa brasileira, postergar o pagamento da importação pode ser extremamente relevante.

Se o prazo concedido aproximar a saída financeira da entrada de receita decorrente da venda dos produtos, a empresa reduz a necessidade de imobilizar recursos próprios durante meses.

Isso pode melhorar liquidez, permitir maior capacidade de compra e, em determinadas circunstâncias, acelerar crescimento.

Mas existe uma diferença importante entre ter crédito disponível e estruturar corretamente uma operação de crédito internacional.

Antes de contratar, é necessário compreender exatamente qual é a natureza jurídica e financeira da operação.

Quem efetivamente concede os recursos?

Onde está localizado o credor?

O financiamento está incorporado ao contrato comercial ou é uma operação financeira separada?

Existe cobrança de juros, fee, comissão ou outro encargo?

Qual moeda determina a obrigação?

Quem assume o risco cambial?

Como serão realizados os pagamentos internacionais?

Existem garantias?

Existe uma instituição financeira ou intermediário regulado participando da estrutura?

Essas perguntas podem produzir consequências diferentes em termos fiscais, cambiais, contábeis e regulatórios.

O financiamento também entra no radar do compliance cross-border

Operações internacionais de crédito não deveriam ser analisadas isoladamente pela área financeira.

O Banco Central mantém o SCE-Crédito, sistema relacionado à prestação de informações sobre determinadas operações de crédito externo. Entre as categorias contempladas pela regulamentação estão empréstimos, financiamentos e importações financiadas de bens, observadas as características e os critérios aplicáveis a cada operação.

Isso significa que a empresa precisa compreender corretamente a natureza da obrigação assumida.

Uma condição comercial concedida diretamente pelo fornecedor pode ter características diferentes de um financiamento realizado por uma terceira empresa. Da mesma forma, um empréstimo internacional pode produzir obrigações distintas de uma importação financiada.

A forma econômica da operação precisa estar alinhada à documentação contratual, ao fluxo financeiro e ao tratamento regulatório adotado.

O ponto central é simples: o crédito pode resolver uma necessidade de capital, mas também cria uma relação financeira internacional que precisa ser corretamente estruturada.

Tributação também precisa fazer parte da conta

O custo real de uma importação não corresponde apenas ao preço negociado com o fornecedor.

Tributos, despesas aduaneiras, frete, seguro, variação cambial, encargos financeiros, armazenamento, prazo de estoque e custo do capital afetam a margem final.

Quando existe financiamento internacional, outra camada é acrescentada à análise.

Dependendo da estrutura, da contraparte e da natureza dos pagamentos, juros, encargos, contratos e fluxos internacionais podem produzir tratamentos fiscais específicos.

Além disso, empresas que realizam operações com partes relacionadas no exterior precisam observar o regime brasileiro de preços de transferência quando aplicável, atualmente estruturado de acordo com a Lei nº 14.596/2023 e sua regulamentação.

Por isso, uma taxa de financiamento aparentemente mais baixa não necessariamente representa a operação economicamente mais eficiente.

O que importa é o custo efetivo da estrutura depois de considerados todos os seus componentes.

2026 adiciona outra variável: a transição tributária brasileira

A discussão ocorre justamente em um ano particularmente relevante para o sistema tributário brasileiro.

Em 2026 começou a implementação da reforma da tributação sobre o consumo, com a introdução da CBS e do IBS e novas exigências relacionadas à documentação fiscal. A Receita Federal classifica 2026 como um período de transição e adaptação ao novo sistema.

Para empresas envolvidas no comércio exterior, isso aumenta a importância de integrar planejamento tributário, processos internos, sistemas e operações aduaneiras.

Uma estratégia de importação desenhada apenas para reduzir o preço de aquisição pode produzir um resultado diferente quando observados créditos tributários, obrigações acessórias, custos financeiros, prazo de estoque e estrutura societária.

Em um ambiente de transformação tributária, crescimento internacional exige ainda mais planejamento antes da execução.

Dólar, yuan e real também entram na estratégia

Outro elemento relevante é a moeda utilizada nas operações.

O dólar continua exercendo papel predominante no comércio e nas finanças internacionais. Entretanto, a expansão econômica chinesa também vem acompanhada da criação de estruturas capazes de ampliar pagamentos e financiamentos relacionados ao comércio com o país.

Brasil e China também vêm aprofundando mecanismos financeiros bilaterais. Em 2023, o Banco Central do Brasil e o People's Bank of China firmaram memorando relacionado à cooperação financeira entre os dois países.

Para as empresas, essa evolução não significa simplesmente substituir dólar por yuan.

A escolha da moeda precisa considerar preço comercial, exposição cambial, fluxo de receitas, disponibilidade de hedge, custos financeiros e estrutura dos pagamentos.

Uma empresa brasileira com custos em yuan, financiamento denominado em dólar e receitas exclusivamente em reais, por exemplo, possui múltiplas exposições que precisam ser acompanhadas conjuntamente.

É por isso que gestão cambial não deveria ocorrer depois que o contrato já foi assinado.

Ela faz parte da própria estruturação da operação.

Geopolítica está redesenhando comércio e financiamento

O avanço do crédito conectado ao comércio Brasil-China também precisa ser compreendido dentro de uma transformação maior.

Tensões comerciais entre grandes economias, mudanças tarifárias e políticas de incentivo à produção doméstica vêm estimulando empresas a revisar fornecedores, mercados e cadeias de abastecimento.

A própria reportagem da Forbes relaciona o surgimento dessas novas soluções de financiamento ao ambiente de maior fragmentação do comércio internacional e ao crescimento da participação chinesa nas cadeias brasileiras.

Nesse cenário, competir globalmente deixa de significar apenas produzir e vender.

Países, instituições financeiras e plataformas passam a disputar também quem financia, processa pagamentos, transporta mercadorias e controla a infraestrutura necessária para sustentar o comércio.

Para empresas brasileiras, esse ambiente pode gerar oportunidades importantes.

Mas também exige uma leitura mais sofisticada de risco internacional.

A melhor estrutura nem sempre é a mais óbvia

Imagine duas operações aparentemente semelhantes.

Na primeira, a empresa paga antecipadamente ao fornecedor chinês utilizando capital próprio.

Na segunda, recebe prazo adicional por meio de uma estrutura internacional de financiamento.

O segundo modelo pode preservar caixa e permitir maior giro do negócio. Mas, para saber se ele realmente é superior, será necessário comparar:

custo financeiro total, exposição cambial, prazo médio de estoque, margem operacional, tributação, documentação, eventuais obrigações regulatórias, riscos contratuais e capacidade de pagamento.

É essa visão integrada que transforma financiamento em estratégia.

Crédito barato utilizado dentro de uma estrutura inadequada pode criar riscos. Crédito corretamente estruturado pode ampliar capacidade operacional sem comprometer desnecessariamente o caixa.

Importar da China está deixando de ser apenas uma decisão comercial

A integração entre comércio, tecnologia, logística, pagamentos e crédito provavelmente continuará avançando.

Para empresas brasileiras, isso representa acesso a novos instrumentos e maior capacidade de estruturar operações internacionais.

Ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade sobre como essas operações são desenhadas.

Antes de assumir uma obrigação financeira internacional, é importante avaliar a estrutura completa, incluindo aspectos tributários, cambiais, societários, regulatórios e financeiros.

A pergunta deixa de ser apenas:

"Quanto custa importar este produto?"

E passa a ser:

"Qual é a estrutura mais eficiente, segura e sustentável para financiar esta operação internacional?"

Essa diferença é fundamental.

Planejamento internacional exige visão integrada

Em operações cross-border, decisões comerciais raramente permanecem apenas comerciais.

Uma escolha de fornecedor pode afetar tributação. Uma decisão de financiamento pode criar exposição cambial. Uma alteração no prazo de pagamento pode modificar capital de giro. Uma estrutura contratual pode gerar novas obrigações regulatórias.

É por isso que empresas com operações internacionais precisam avaliar esses elementos de maneira coordenada.

A H&CO GLOBAL Tax Advisory atua na análise e estruturação de operações internacionais, integrando planejamento tributário, estrutura societária, compliance e visão estratégica para empresas e investidores que operam entre diferentes jurisdições.

Em um ambiente internacional cada vez mais conectado e, ao mesmo tempo, mais complexo, crescer globalmente exige mais do que acesso a mercados. Exige uma estrutura capaz de sustentar esse crescimento com eficiência, conformidade e visão de longo prazo.

H&CO GLOBAL TAX ADVISORY © 2026. ALL RIGHTS RESERVED

Alguns produtos e serviços do Ecossistema H&CO não estão disponíveis para residentes e/ou cidadãos de determinados países. Portanto, os usuários do site devem consultar os Termos de uso deste site e entrar em contato para obter mais informações sobre os produtos e serviços disponibilizados no seu país. Além disso, os usuários podem falar com seus consultores para esclarecer dúvidas relacionadas à interpretação dos Termos de uso.

Desenvolvido por: AVANCE propaganda